11/05/2010 | Texto: Nuno Passos | Fotos*
A síntese é feita pelo presidente da ANICT, Nuno Cerca. Este investigador associado do Centro de Engenharia Biológica da UMinho foi o promotor da ANICT. No início de 2009, em plena discussão sobre a reformulação dos estatutos da UMinho, enviou um email à comunidade académica a perguntar qual seria o papel dos investigadores auxiliares no processo, visto serem “um novo corpo” dentro da Universidade. Nesse dia obteve resposta de Natascha van Hattun, do Centro de Investigação e Educação. “Fomos tomar um café e percebemos que partilhávamos preocupações, tínhamos que agir”, recorda Nuno Cerca. A cada dia juntaram-se colegas como Nuno Otero (Algoritmi), António Salgado (Instituto de Ciências da Vida e da Saúde), Adriana Sampaio e Jeremie Josefowiez (ambos do Centro de Investigação de Psicologia), Alexandra Marques e Iva Paskuleva (ambos do Grupo 3B’s), Ferrie van Hattum (Departamento de Engenharia de Polímeros) e Issam Oueslati (Departamento de Química), entre outros.
“Existia algo de comum e de muito forte: todos queríamos contribuir activamente para o desenvolvimento da ciência em Portugal baseado em princípios de transparência, justiça, responsabilidade e excelência”, afirma Nuno Cerca. Seguiu-se o 1º Encontro Nacional de Investigadores Auxiliares, ocorrido em Maio de 2009 na UMinho. Face à adesão confirmava-se que “há claramente” um grupo de jovens (30-40 anos) cientistas doutorados que desejam contribuir significativamente para a promoção da ciência lusa. “Atingiu-se uma massa crítica que facilita a mudança que tantos esperam”, continua Nuno Cerca.
1º Simpósio da ANICT, realizado no passado dia 8 de Maio, em Lisboa
Proposta de modelo de avaliação em cursoParte dos membros da comissão instaladora da ANICT teve experiências de formação e/ou profissionais no estrangeiro. Este facto ajuda “a que algo possa melhorar na sua actividade” em Portugal. Nos corpos sociais da associação há peritos ligados às universidades do Minho, Porto, Coimbra, Évora, Nova e Técnica de Lisboa. As primeiras eleições da entidade, que já ronda os 300 sócios, decorrem em Julho e devem escalar um novo líder. “O grupo de fundadores nomeou-me presidente, visto que enviei o tal primeiro email. Agora irei fazer parte de uma lista candidata à direcção, mas encontramos um colega que, penso, desempenhará melhor a função de presidente”, revela Nuno Cerca.
Um dos maiores desafios da ANICT será aumentar a visibilidade da ciência que se faz em Portugal – a par da promoção da excelência na investigação, é necessário levá-la ao grande público, não só para que a sociedade civil perceba o retorno do investimento, mas para criar correntes de opinião que coloquem o desenvolvimento científico no topo da agenda política. “Só assim atingiremos o patamar de desenvolvimento adequado a um país moderno, esse é o nosso objectivo final a médio/longo prazo”, declara Nuno Cerca. Por outro lado, urge estabelecer critérios transparentes e justos de avaliação de desempenho dos investigadores, para poderem de facto progredir para uma ciência de excelência e contribuírem cada vez mais para uma sociedade do conhecimento. Aliás, a ANICT foi já convidada pela FCT para apresentar uma proposta de modelo de avaliação, o que “será, certamente, a prioridade a curto/médio prazo” da associação.
Alguns dos membros fundadores da ANICT: Natascha van Hattum (IE), Ferrie van Hattum (DEP), Nuno Cerca (CEB), Alexandra Marques (3B’s), António Salgado (ICVS)
Mais de mil investigadores contratados desde 2007
A contratação de mais de 1500 investigadores doutorados na última década trouxe importantes desafios, mas sobretudo oportunidades. Só desde 2007 foram contratados mais de 1000 investigadores, colocando enormes desafios de integração. Duas grandes dificuldades são a falta de autonomia e a falta de condições para o trabalho. A começar pelo facto de parte daqueles cientistas ter sido integrado em universidades, onde a investigação era feita essencialmente por docentes universitários, recorrendo a um elevado número de bolseiros. Sucede que, segundo as estatísticas, a produção científica portuguesa teve um aumento muito considerável na última década, coincidindo com a fase de contratação de imensos investigadores, de início para laboratórios associados.
Em vários centros de referência há casos de excelente integração, sobretudo quando se deu ao investigador autonomia e hipótese de criação do seu núcleo de colaboradores, através da orientação de alunos de doutoramento e pós-doutoramento e da gestão independente dos seus projectos. “Este será o bom exemplo a seguir: investimento claro nos jovens cientistas doutorados que normalmente conseguem revelar melhores níveis de produtividade científica”, insiste Nuno Cerca, notando que desde 2007/08 já se nota melhorias neste campo na UMinho e noutras academias. O responsável realça, porém, que ainda há muito para fazer para chegar ao equilíbrio desejável entre investimento e retorno científico, quantificado pelo aumento na qualidade das publicações científicas.
* Fotos cedidas pela ANICT